RÍO DE COCHAMÓ

Juan acordou tarde hoje, mais tarde do que nunca, já que ficou até depois da meia-noite lendo, relendo e contemplando as primeiras cartas enviadas por Ema. Por sorte não tinha muitos afazeres para esse dia, então pôde continuar vibrando com a viagem de sua amiga durante o restante da manhã. Já havia se passado um mês desde que se despediram e Juan esperava ansioso a chegada desses pacotes estranhos enviados de terras distantes.
Dentro do envelope havia recortes de revistas e guias, mapas, fotos, passagens de trem e textos escritos por Ema em diferentes datas de sua viagem. Juan nunca esperou receber algo assim, tão bagunçado e fascinante ao mesmo tempo, era como um quebra-cabeça de histórias. Até o envelope tinha desenhos e recortes colados.
Longe daí, no sul do Chile, Ema continuava percorrendo os cantos mais ocultos, explorando uma linda região povoada por árvores antigas, vulcões, rios e lagos. Ema conheceu lugares de natureza exuberante, avançando lentamente, fazendo pequenas paradas até que chegou em Cochamó, um pequeno povoado localizado à beira do estuário de Reloncaví, na província de Llanquihue. Na manhã em que Ema chegou, chovia intermitentemente, o ar cheirava a lenha e terra molhada, dava pra observar todo o povoado da parte mais alta até o mar, que do alto parecia um lago tranquilo. Pegou sua mochila e começou a caminhar descendo a rua Catedral observando com atenção e procurando um lugar para comer. As casas coloridas e escamadas com muros de pedra soltavam uma fumaça que falava de toda uma vida familiar interna construída ao redor da cozinha. Os jardins cheios de flores, gatos dorminhocos e um ou outro cachorro de patas cheias de barro descreviam um mundo diferente, cheio de magia.
Nesse pequeno e estranho povoado inclinado para o mar, lhe chamou a atenção uma casa desbotada que tinha um letreiro que dizia “empanadas”, então Ema se lembrou que seu estômago estava vazio desde muito cedo e bateu na porta. Demorou para abrir um senhor baixinho, de aspecto severo, sobrancelhas juntas e olhos grandes cor de ônix verde:
—Ramón Jacinto Barrientos Huenchucheo, a suas ordens! — foi o cumprimento estranho feito por este cavalheiro.

—Olá, me chamo Ema. Você tem empanadas?
—Não, não tenho empanadas preparadas. De onde você vem? Entre, tenho cazuela de pava. Tem refrigerante Bilz ou só água, também, se quiser, chicha de maçã.
Ema não pôde resistir a uma cazuela de pava quente nessa manhã úmida e entrou na casa. Ramón a fez entrar direto no lugar em que ficava a cozinha a lenha, onde a roupa lavada secava no calor do fogo. Então entrou uma senhora da mesma estatura que Ramón e cumprimentou Ema com um sorriso.
—Bom, dia, minha filha! Vai almoçar? — Perguntou a senhora.
—Ela é Marta, minha esposa — apresentou Ramón— A jovem se chama Ema e vem de... de onde a senhorita disse que vinha?
—Agora venho da Argentina, mas já estou percorrendo o Chile faz algumas semanas— respondeu Ema.
—E o que te traz a Cochamó? — perguntou Marta com curiosidade.
—Não sei, na verdade. Não conhecia nada deste lugar, mas as pessoas me atraem, a natureza… me disseram que mais pra cima, em direção à cordilheira tem uma região linda, com montanhas calvas e bosques, me contaram que tem um rio também.

—Um rio que fala— interrompeu Marta.
—Não comece— respondeu Ramón meio incomodado.
—Como assim um rio que fala? A água fala? — perguntou Ema com certa ironia.
—O rio que chega a Cochamó vem de lagoas altas situadas na cordilheira. No seu trajeto se une a outros rios, cada um traz sua história, suas paisagens, cada um com sua própria memória e quando um rio se junta com outro, começam a conversar. O rio não é só água, é a sua trajetória, seu ecossistema, seu ciclo e seu som. Se fosse só água não poderíamos falar do “rio”, porque sempre traz água nova e vai embora. A água que vi ontem no rio já está no mar, já não é mais rio. Mesmo assim, o rio sempre está aí e fala e canta, é um grande mestre, fique atenta!
—Quando Marta contava isso, Ema se lembrou do que Luiz, o pai de Juan, dizia em Sierra Embrujada: “A natureza tem coisas guardadas, mas não falam da mesma maneira que as pessoas”. Então a curiosidade de Ema cresceu e se fez mais intensa que a fome que sentia:
—Senhora, e como é que eu posso entender o que o rio diz?
—Ah! Se você vê o rio e ouve o seu som, vai interpretá-lo como um rio barulhento, mas se você não olhar para ele e só escutar, terá um murmúrio, vai se esquecer da água e ficará apenas com seu som, com sua voz — Respondeu Marta abrindo seus grandes olhos.
—E como eu faço para não ver o rio? Se fecho os olhos vou saber que ele está lá mesmo assim.
—São várias horas de caminhada na subida pela ladeira do rio até chegar ao refúgio. —Prosseguiu Marta— e você não vai precisar fechar os olhos, pelo contrário, deve tê-los bem abertos para saber onde pisar corretamente. Subirá junto ao rio, mas não vai conseguir vê-lo, há tanta vegetação que só vai dar para escutar o murmúrio da água na sua descida desde a cordilheira até o estuário. Só o som do rio te acompanhará… e o das aves - Marta fez uma pausa, olhou para o prato de Ema cheio e terminou dizendo: — Sirva-se da cazuela! Senão ela vai esfriar!
—Quero conhecer esse rio! — concluiu Ema e se pôs a comer.
De alguma forma, Ema sentia que sua viagem começava a ter um sentido mais transcendente e que os eventos começavam a encadear-se em uma só história. Marta e Ramón compartilharam histórias, descrevendo o lugar enquanto Ema almoçava. O casal havia chegado a Cochamó há 20 anos, antes viviam em Terao, um pequeno povoado na ilha de Chiloé, de onde traziam toda sua cultura e sabedoria. Ao se estabelecerem em Cochamó, trabalharam em um pequeno estaleiro ajudando a construir barcas e lanchas para os pescadores e transportadores que abasteciam essas remotas terras do estuário do Reloncaví.
Enquanto a conversa prosseguia dentro dessa cálida cozinha cheia de aromas e cores alegres, lá fora o céu começava lentamente a escurecer com nuvens espessas e começou um vento travesso a despentear as copas das árvores e a dar rajadas com força inquietante. Não demorou muito para cair o primeiro temporal quando Ema e seus anfitriões olharam pela janela para ver como o céu havia mudado e as ruas inclinadas de Cochamó haviam se transformado em rios.
—Senhorita, parece que amanhã você vai ter que ficar aquí — advertiu Ramón—O caminho vai estar difícil se continuar chovendo e a parte mais alta vai estar puro barro.
—Sim, minha filha, fique aqui conosco. Temos um quarto pra você.
—Obrigada, amigos! FIco feliz em passar a noite aqui, só estava me perguntando: o que estará dizendo o rio agora que chove tão forte?
—Agora deve estar feliz recebendo o aguaceiro, o rio está conversando com o céu— respondeu Marta abrindo seus grandes olhos.
—O céu escureceu cedo por causa da chuva e às 8:00 já estavam todos bocejando. Ema sentiu vontade de tirar os sapatos e sentar em um lugar confortável para escrever uma carta a seu amigo Juan da Argentina.
—Nos perdoe, senhorita, mas aqui nos levantamos antes das galinhas. Por isso fique com Deus, já vamos dormir… —Ramón começou bruscamente a despedida.
—Não se preocupem, estou cansada também— disse Ema com um sorriso que se transformou em bocejo.
Assim, rapidamente a cozinha ficou às escuras, cada um foi para o seu quarto e Ema teve seu momento de intimidade com a memória e a imaginação. Entrou em seu quarto que estava no sótão da casa e se deitou na cama descalça. Abriu sua mochila e começou a tirar cadernos, mapas e fita adesiva. Cobriu os pés com um grande cobertor de lã e começou a escrever:

...O povoado se chama Cochamó, e são uma poucas ruas em declive até uma entrada para o mar que se chama Estuário del Reloncaví. O entorno é montanhoso, cheio de árvores velhas que enchem as colinas de verde. Amanhã queria começar uma longa caminhada até uma parte da Cordilheira dos Andes que se chama La Junta, mas o clima não me acompanhou e terei que esperar pelo menos um dia. Mas não importa, o destino fez com que eu chegasse a uma casa com gente maravilhosa, duas pessoas muito sábias moram nesse lugar e me contaram coisas assombrosas que me fizeram pensar muito no nosso episódio no bosque de tabaquillos com Luciana. Será que foi mágico? Algo me diz que a natureza dialoga permanentemente conosco e só sabemos escutá-la.
Vou continuar escrevendo esta carta a medida que vou conhecendo melhor esse lugar e entenda melhor essa conexão que comecei a sentir. Amanhã te conto sobre um rio… um rio que fala!

As casas de Cochamó se iluminaram cedo de manhã com raios de luz intensos transpassando nuvens grandes e grossas, desenhando arcos-íris ocasionais no céu e pintando o bosque de sombras e brilhos. Ema contemplava o espetáculo emocionada de sua janela. Desde pequena adquiriu o hábito de acordar assim que o sol saísse e ficar um tempo contemplando e refletindo antes de começar o dia. Mas dentro da família que a hospedava já era tarde, Ramón e Marta já estavam acordados há duas horas trabalhando, cozinhando, arrumando materiais para levar para o estaleiro, limpando a casa e a bagunça que a chuva e o vento tinham feito na garagem.

Novamente os aromas, desta vez pão amassado e café, chegaram ao quarto de Ema estimulando sua vontade de descer para se encontrar com seus amigos na cozinha. Lá estava Ramón tirando os pães do forno:
—Bom dia, Ema! Dormiu bem? Passou frio?
—Olá, Ramón! Nada de frio, só um pouco pela manhã, mas aqui está ótimo.
—Acho que hoje você está com sorte, vai ser um dia maravilhoso para percorrer o povoado e seus arredores. Nem pense em subir a La Junta hoje, o caminho está fechado pela chuva de ontem a noite. A boa notícia é que amanhã subiremos com você, nos encarregaram de levar abastecimento ao refúgio dos escaladores em La Junta. Várias verduras e trinta empanadas. Não sei como poderemos levá-las a pé, não gosto de subir a cavalo porque desgasta muito o caminho. Quer tomar café?
—Eu vou ajudá-los a levarem os alimentos! Ficarei muito feliz de subir com vocês!
—Tem certeza? — respondeu Ramón—O caminho é difícil, tem que atravessar rios caminhando, pontes suspensas, troncos e muito, muito barro nos pés.
—Tenho certeza! —assegurou Ema—e sim, gostaria muito de tomar café e provar esse pãozinho feito agora. Obrigada!

Sair na rua nesta manhã foi uma delícia para Ema, tudo estava perfumado de chuva e lenha. O mar no estuário parecia vivo, como um grande animal se estirando, a ponto de despertar. O sol saía e se escondia, as cores mudavam de um segundo ao outro e fumaças elegantes em cada chaminé subiam até o céu.

Ema saiu da igreja um pouco desiludida pela conversa com o sacristão e foi caminhando a passo rápido pela rua Catedral até a casa de Ramón e Marta. Entrou na casa e foi direto para seu quarto para escrever para Juan.
Era estranha a sensação que invadia Ema quando escrevia para Juan, cada carta era como um refúgio acolhedor, um mundo inventado por ela com recortes e folhas de árvores prensadas. Só o fato de escrever-lhe era abrir uma via de escape para um diálogo cheio de confiança. Nesse momento, Ema agradeceu por tê-lo perto, mesmo estando longe, e teve muita vontade de vê-lo de novo. Em algum momento voltaria para Argentina, e levaria um carregamento infinito de presentes, memórias e experiências. A imagem de cada lugar em um relato.
A casa estava fria, não havia ninguém para acender o fogão a lenha e ela não sabia como funcionava essa enorme estufa, então foi ao seu quarto para escrever e se envolveu no grande cobertor de lã. Pegou seu lápis e continuou a carta:

"Hoje caminhei muito por Cochamó, cheguei até a desembocadura do rio, onde a água das geleiras com a água do estuário se reúnem. De verdade, é como um grande abraço entre a água doce da montanha e a água salgada que entra do Oceano Pacífico. Pensei que ia ser mais barulhento, queria escutar esse diálogo de águas, mas quase não dava pra ouvir, era tão silencioso, o rio escorria em pequenos afluentes até chegar no mar.
Depois, caminhei pelas partes altas do povoado, onde estão as melhores vistas deste lugar, aí vão algumas fotos que tirei. Meu dia terminou na igreja que está perto do mar, uma construção antiga de madeira onde conheci seu cuidador e com quem tive uma conversa interessante. Através de suas palavras percebi que alguém pode sentir o chamado da natureza e compreender seus gestos através de uma contemplação profunda, mas também pode sentir temor e fugir dela, se fazer surdo para com suas vozes, se fazer cego para com suas visões. Me lembrei dessa frase do Pequeno Príncipe que diz “O essencial é invisível aos olhos”.
Amanhã parto para La Junta, novas histórias virão, continuará...

Nessa noite sim havia empanadas na casa de Marta e Ramón. A janta foi cheia de emoção por causa da travessia que estava por vir, comeram felizes falando de botânica, compartilhando uma por uma as espécies de árvores nativas que encontrariam no caminho: Coigües, Ñirres, Mañíos, Ulmos, Alerces, Lenguas, Arrayanes e Lumas.
—Existem Tabaquillos aqui? —Perguntou Ema intuindo qual seria a resposta.
—Tabaquillos? —perguntou Ramón—faz anos que deixei de fumar.
—Não me refiro ao tabaco para fumar, é uma árvore que conheci na Argentina, perto de Córdoba, se chama Tabaquillo.
—Acho que não existem nessa região, lá o clima é muito diferente—respondeu Marta
—Cada região tem sua própria flora e fauna, bom, contanto que o homem não intervenha tanto.

Ema sentiu saudade de seu amigo Juan, da paisagem de Sierra Embrujada e da floresta de Tabaquillos. Queria enviar sua carta logo para ele, mas faltava algo, Ema ainda esperava escutar esse misterioso rio e queria compartilhá-lo em sua carta com Juan.
Muito cedo de madrugada, Ema acordou escutando barulhos na cozinha. As luzes estavam acesas em todo o primeiro andar e a voz de Marta soou dizendo—parece que Ema já acordou—. O dia havia chegado, partiriam antes que o sol saísse. Ema desceu para cumprimentar e pôr mãos à obra com o carregamento dos alimentos.
Em poucos minutos já estavam prontos para sair, tudo em cima da caminhonete antes das 6 da manhã. Puderam fazer os primeiros quilômetros na velha Mitsubishi de Marta, um veículo que funcionava como por milagre. Dentro da cabine tudo dançava entre cascas de cebola e frutas esmagadas, pelo menos a chuva tinha servido para lavar a carroceria.
De repente pararam em um portão de madeira, quando o céu começava a se iluminar anunciando a silhueta das montanhas para onde se dirigiam.
—Até aqui chegamos no calhambeque! —anunciou Marta em alta voz.

Todos saíram da caminhonete e começaram a colocar as mochilas e sacolas com os alimentos que deveriam levar para a gente do refúgio em La Junta. A emoção dos primeiros passos foi tremenda. O frio da manhã, o contato da terra debaixo dos pés, centenas de gafanhotos saltando a cada passo que davam, as silhuetas sombrias das antigas árvores e o som do rio. Finalmente! O Rio de Cochamó.
—Posso ouvir o rio—disse Ema, com emoção—e não o vejo, onde está? O que está dizendo? Não sinto nada.
—Fique tranquila… falta muito caminho… deixe acontecer —disse Ramón pausando entre as respirações enquanto caminhava.

Pouco a pouco as cores começaram a aparecer debaixo da luz do sol, a natureza despertava levantando um suave vapor da copa das árvores. besouros e cigarras brincavam num canto da trilha. O canto dos passarinhos chucaos deixava tudo mais alegre ainda, dando pulinhos pelo chão iam acompanhando os viajantes.
Dentro de toda a beleza da paisagem, o cansaço começou a se fazer notório, ainda mais em Ema, que não estava acostumada a subir por estas ladeiras, e muito menos com sacolas grandes de maçãs e cenouras. Marta notou a cara vermelha de esforço de Ema e propôs uma pausa. Escolheu bem o lugar para o descanso, uma pequena clareira em altura, de frente para o rio, um dos poucos lugares onde se podia apreciar sua corrente e suas cores.
Ramón ofereceu ameixas e água, Ema tinha barras de cereal que compartilhou também nesse pequeno mirante.
—É incrível! —disse Ema—é como se cada árvore, cada passarinho me cumprimentasse, até o rio que está me vendo agora.
—Cumprimente também! Assim é que se começa o diálogo, são bons modos, — disse Marta olhando a paisagem com um sorriso, enquanto tomava uns goles da garrafa d’água.
—Bom dia, senhor cuchao! Como vai, querida árvore! E você, senhor Rio, bom dia! Tem algo pra me dizer nessa manhã? —dizia Ema brincando, enquanto fazia reverências a todos na clareira.

Todos riram junto com as brincadeiras de Ema e começaram a cumprimentar uns aos outros, as pedras, as montanhas, as flores e as nuvens. Assim continuaram enquanto se levantavam para seguir caminhando.
O caminho começou a ficar um pouco mais complexo, entraram num bosque por onde tinham que escalar sobre grandes pedras. Foi necessário soltar algumas sacolas e trabalhar em equipe, passando os pacotes em fila. Nesse momento, enquanto Ema subia uma grande rocha, sentiu um som, como uma voz indecifrável que lhe dizia algo em meio ao murmúrio distante da água. Ficou petrificada, porque sabia que era o rio, mas foi pega de surpresa, não estava preparada e não entendeu o que dizia. Marta percebeu ao ver a cara de Ema, que algo tinha acontecido. Enquanto isso, a menina olhava para todos os lados esperando que a mensagem se repetisse para poder entendê-la.
—O que aconteceu, Ema? —perguntou Marta— tudo bem?
—Sim, tudo bem, é que… não sei.
—Vamos, não pare, se concentre, não queremos um acidente aqui. — Replicou Marta sabendo no fundo o que estava acontecendo.

Ema continuou o trajeto muda, escutando aquele turbilhão de água que descia da montanha, mas de repente compreendeu que estava pensando no rio, imaginava-o e isso é justamente o que deveria fazer. Então prosseguiu com sua marcha silenciosa, mas com sua mente posta nela mesma, no entorno, na sua memória. Seus passos seguiam regulares, seu pensamento livre, folhas secas, pegadas de cavalo no barro, o sol através das copas das árvores coigües e um murmúrio, que pouco a pouco se fazia voz, como a voz de um pai e uma mãe ao mesmo tempo. Duas lágrimas caíram dos olhos de Ema e um calor começou a invadi-la de dentro. Sem parar de andar, continuou ouvindo emocionada e com o rosto cheio de lágrimas a voz desse rio que lhe cantava cantigas de infância, que lhe dizia frases que ela já conhecia.

—Foi um longo caminho hoje até aqui, mas já chegamos— disse Marta se sentando ao lado de Ema—e como você está?
—Feliz, muito feliz, mas exausta, não aguento de dor nos pés, minhas meias estão cheias dessas sementes que grudam que nem velcro, e coçam.
—Sim, são os “Amores Secos”, eu te ajudo a tirá-los—disse Marta aproximando-se dos seus pés —E aí? Percebi que o rio falou com você hoje, que você conseguiu sentir o que dizia—enquanto dizia isso, os olhos de Ema se encheram de lágrimas.
—O rio falou comigo, cantou pra mim, senti até como se me abraçasse, como quando os meus pais me abraçavam… Muito obrigada! Obrigada por me trazer aqui. — espondeu Ema apoiando a cabeça no ombro de Marta.
—Incrível! —disse Marta—é como se esse rio nos conhecesse por toda vida, me contou o sabor da neve e de todos os animais que vêm visitá-lo para beber água fresca na margem, até que chega ao mar.

Nessa noite no refúgio havia tanta alegria que foi feita uma fogueira em agradecimento. O encontro dos amigos escaladores com os visitantes foi como sempre, uma celebração cheia de danças e cantos. Assim, como por mágica apareceu um violão e um acordeón para entoar “cuecas e chacareras”, estilos musicais da região. Ema dançou e riu como uma criança descalça até seu corpo não poder mais. Todos se foram deitar cedo, abatidos pelo dia intenso e cheio de emoção.
A carta para Juan foi terminada na manhã seguinte, sentada no sol, frente a um rio muito conversador, o Rio de Cochamó.